quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Devolução Eletrônica

Uma carta...
Uma solicitação...
Um coração pulsante...
Um novo sentimento...
Uma emoção...
Uma carência que toma conta...

Hoje foi mais um dia quente e abafado, tudo que eu queria era chegar em casa, ligar todos os ventiladores e me deitar em minha cama, queria.

O suor não era um adorno de meu corpo, já se tornara parte de mim, meus pensamentos a todo o momento se voltavam para meu quarto, um lugar espaçoso, decorado com móveis antigos de paredes claras, uma cama de madeira grande e confortável, uma mesa do mesmo material, com pés esculpidos e envernizados, uma velha estante de madeira de lei onde ficam os livros, uma mesa menor onde fica apoiada a televisão que, por falta de tempo ou preguiça ou vontade de não me desfazer da mesinha, ainda não foi fixada na parede, sobre a grande mesa um aparelho de som, um notebook, uma impressora e uma luminária, sob ela uma caixa com muitos fios.
Meus pensamentos se fixavam por alguns momentos no que eu estava fazendo, mas logo eu era arremessado para aquele quarto, o quarto que não sei se é meu, ou se ainda o divido com outro alguém, queria de vez chegar nele e sentir aqueles lençóis claros e macios sob mim e só pedia pra que um vento gélido soprasse em meu rosto.
Já é hora de ir pra casa, pensei, me dirigi a uma sala, pois, afinal SÃO QUATRO HORASS, não suportava mais aquele ambiente e decidi de vez partir. Eu poderia enfim descansar.
Um ônibus cheio, outro ônibus cheio... Nada demais, pois eu iria me deitar e sentir aquele vento em meu rosto.
Cheguei em casa e como uma faísca entrei em meu quarto, queria que os ventos soprassem em minha direção. Algo me chamou atenção antes que eu focasse os olhos nos ventiladores, uma carta. Havia uma carta em cima da minha cama, sobre os meus lençóis, que eu tanto pensava durante o dia, pairava uma carta.
Ela chegara há pelo menos 7 horas e se destinara a mim, minha mãe a colocou sobre minha cama. Não podia ser na mesa, mãe?
O envelope me chamou atenção, era um tom de vermelho, como se estivesse desbotado, nele havia um leve perfume... Eu já senti esse cheiro antes, mas onde? Onde? Pense... Pense...
Eu estava curioso pra conhecer o conteúdo daquele envelope, sequer pensei em ver o remetente, queria apenas saber do que se travava.
Passei a mão em um estilete que estava sobre a mesa e abri aquela carta, delicadamente para não correr o risco de estragá-la. Havia uma folha comum lá dentro, com quatro dobras. Ela não havia sido escrita à mão. Uma fonte comum, impressa em uma impressora a laser, dava para perceber o brilho do tonner ainda. Faziam poucas horas que ela havia sido impressa.
No topo do papel, justificado a esquerda havia meu nome e só. Logo abaixo o texto...
Busquei o nome do destinatário, mas no verso do envelope esta escrito apenas: DEVOLUÇÃO ELETRÔNICA, um código de barras e a cidade de origem.
Tentei buscar de diversas maneiras o autor dessas curtas palavras, mas nada adiantava, eu não conseguia descobrir quem, num dia de calor intenso, me fez esquecer de ligar os ventiladores e passar horas deitado pensando. Aquele calor era quase insuportável, mas eu só pensava em alguém que eu não conhecia, um rosto estranho, eu queria saber quem era, quem havia conseguido mexer comigo de tal forma...
E hoje, eu sei que lhe conheço, sei que estás bem perto de mim, sei que posso confiar em ti. E hoje, eu sequer sei quem tu és.