quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Quem

Quem é que te conta como foi o dia, independente de ser sido de chuva ou de sol?
Quem é que te manda uma música qualquer, a qual você ouve (e às vezes demora a entender o significado)?
Quem é que não aceita de imediato as tuas desculpas, na vã esperança de que tu te arrependa ou pouquinho mais por ter sido tão imbecil?
Quem é que te conta o porquê de ler aquele livro?
Quem é que  abre um sorriso cada vez que tu diz que não liga?
Quem é que te faz feliz?
Quem é que prende tua respiração, acelera teus batimentos cardíacos e te faz perder a razão dos teus atos?

Mesmo que um sorriso não baste. Mesmo que uma noite a mais seja a gota d'água para todas as outras (dezenas) de noites que se antecederam.  Mesmo que o meu cheiro custe a sair do teu travesseiro. Ás vezes, um pedido de desculpas não é o suficiente para uma queda na realidade. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Completo

Aninha conheceu Otávio em um restaurante japonês. Enquanto aguardava no bar do local, viu aquele homem loiro recostado no balcão. Alto, altivo, elegante. Entre um gole de saquê e outro, foi prestando atenção aos pequenos detalhes de suas roupas. Ao focar em sua barba, sobe os olhos e percebe que ele também a olhava. Sorriu, enrubesceu e percebeu que havia encontrado o homem da sua vida. O próximo saquê, ofertado por ele, deu inicio a uma conversa longa sobre coisas simples da vida e pequenas atividades corriqueiras. A conversa, que se estendeu durante o jantar, foi terminar na cama de Aninha. 
Otávio, extremamente educado, ligou no dia seguinte. Otávio mandou flores para Aninha durante a tarde (que foram deixadas sobre a mesa  de secretária que ela ocupava em um escritório). 
Otávio também ligou durante a noite, convidando-a para jantar em um restaurante italiano "Maravilhoso, completamente maravilhoso", foram as palavras utilizadas para descrever o restaurante. E realmente o era.
Durante aquela semana seguiram-se encontros diários, todos  encerrados no pequeno apartamento de um quarto que Aninha ocupava no subúrbio da cidade. Após um mês de encontros diários, Aninha conta para a sua mãe que havia encontrado o homem da sua vida. Educado, bonito, elegante, com situação financeira estável e completamente solteiro. "Sem filhos, mãe. Sem filhos!". Um achado e tanto, considerando os trinta e oito anos que Aninha tinha passado sem encontrar um homem sequer que prestasse. E ele ainda gostava de seus dois gatos. Para casar, definitivamente. Otávio era um diamante encontrado em meio ao lixo.
Depois de mais de um mês de encontros casuais, passeios aos finais de semana e almoço de domingo, Aninha pergunta a Otávio se ele tinha perfil no Facebook. A resposta afirmativa seguiu-se da anotação de seu nome na rede social.
Aninha chega ao escritório na manhã seguinte, abre seu facebook e procura pelo nome que ele havia anotado no papel. Ao carregar a página, Aninha tem um susto. Com os olhos marejados, sai correndo em direção ao banheiro (onde fica chorando por cerca de três horas). Pede folga pelo resto da tarde, vai para casa e toma um porre de uma garrafa de vinho que ela ganhara na cesta de Natal do escritório. Durante a noite, quando Otávio lhe liga, ela dá o seu decreto. "Está tudo acabado, Otávio. Essa relação é completamente impossível depois do que eu vi hoje. Para mim, é o fim". Também pudera. Aninha jamais conseguiria ter seu perfil associado "em um relacionamento sério" com alguém que estudou na Instituição de ensino "COMPLETO". 


Uma boa tarde, meus negros lindos
xoxo

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Um Rei e um Zé


Tem um ditado que diz "Felizes são os ignorantes". Poucas foram as vezes que ouvi frase mais sábia do que essa. Felizes são aqueles que trabalham por seu salário mínimo, contam o dinheiro para o "rancho", assistem a novela com fervor religioso e acreditam em tudo que está na TV. Felizes são as pessoas que vivem reclusas em suas bolhas de ignorância e sequer sabem o que a vida tem a oferecer.
Eu, ao sair dessa bolha, assumi toda a responsabilidade que o peso do conhecimento nos tráz. Ao perfurar a minha realidade obsoleta e saltar para a imensidão da vida real tive plena certeza de que nunca mais seria feliz em toda a minha vida. Não aquela felicidade bovina, de contentar-se com o que lhe é oferecido. Nunca mais teria a felicidade de não questionar, de acreditar piamente nos meus superiores e de achar que teria um único amor para a vida inteira.
Minha busca desenfreada pelo "ter mais" apenas começa. Ter mais conhecimento. Ter mais dinheiro. Ter mais viagens colecionadas. Ter mais amigos. Ter mais estabilidade. Ter mais. Mais. MAis. MAIs. MAIS MAIS MAIS MAIS MAIS MAIS
Que tipo de pessoa eu me tornei, meu Deus? Por que cargas d'água vim parar aqui?
 Já dizia Apanhador Só:


Um rei me disse que quem deixa ir tem pra sempre.E me contou que só foi rei porque pensava assim: Tão diferente. E eu, que andava assim tão zé, deixei que tudo fosse e decidi olhar pra frente, mas não vi nada. E o rei me disse:"A pressa esconde o que já é evidente. Foi do meu lado que eu achei o que me fez assim, tão diferente." E eu, que corria assim tão zé, deixei que tudo fosse e decidi mudar de frente, mas não vi nada.
Não leve a mal, eu só queria poder ter outra filosofia, mas não nasci pra conversar com rei.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Tipos de Homem


Uma das minhas muitas manias estranhas é ficar imaginando que para cada pessoa existe um certo tipo de homem. Já tive minhas muitas fases: aquela em que o homem ideal era bonito, inteligente, me amasse acima de todas as coisas e fosse fiel. O quesito beleza caiu por terra um tempo depois e descobri que estabilidade financeira e simpatia eram muito mais importantes do que ter uma carinha bonita.Com um pouco mais de experiência e amadurecimento descobri tipos físicos que me atraiam mais: primeiro os loiros com olhos azuis, depois os altos, algum mulato que me chamasse atenção e o rato-de-academia-mega-sarado.
Hoje em dia as únicas coisas que valorizo de verdade é a disponibilidade de tempo do cara para o relacionamento e a fidelidade dele para comigo. De que adianta o cara ser boy magia e nunca te ligar? Ou então ser educado, elegante, simpático, inteligente e passar o rodo em cada micareta que ele vai?
Não idealizo mais um "príncipe encantado". Quero apenas alguém que me trate bem, tenha todos os dentes dentro da boca (rs), tenha tempo para nós e que queira crescer na vida. Talvez sejam pré-requisitos demais, talvez não. Mas aguardemos em Cristo que nosso dia chegará, mulherada! Uma hora aparece aquele amor para chamar de meu.

Uma boa noite, meus negros lindos
xoxo

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Consolos na infeliz vida acadêmica

Que paire a polêmica entre os seres de impuro coração...


Não sei o motivo por se chocar com o título, ou com a imagem, afinal de contas todos transam, ou pelo menos deveriam. Se nunca transou, melhor começar, tá perdendo tempo.

Mas vamos ao que interessa...

Dois patinhos na lagoa!


E lá se foram vinte e dois aninhos, que passaram na velocidade da luz. Lembro-me de que quando eu tinha treze, catorze anos, meu sonho era ter meus vinte e tantos. Mal sabia eu a furava em que eu estava me metendo.

Uma das coisas mais difíceis, ao meu ver, é falar de mim mesma. Ninguém convive tanto comigo quanto eu mesma, mas eu, acostumada a mentir para mim mesma e a tentar me enganar, possuo um olhar viciado para os meus erros. Me considero uma das pessoas mais controvertidas do mundo. Não diria bipolar, porque acho um termo meio exagerado (assim como eu). Aos poucos vou me acalmando, deixando de ser assim tão xucra, assim tão revoltada, assim tão achando que o mundo inteiro está de cabeça para baixo e que cabe a mim, salvadora da humanidade (e mera mortal), fazer com que as pessoas abram seus olhos para o que se passa ao redor. Apaixonada por músicas, gatinhos e café. Faço questão de parecer inabalável, inatingível, mas em poucos segundos desabo se vejo um sorriso de uma criança. Sim, sou apaixonada por crianças. Meu instinto materno ( o qual eu refreio com muito custo) aflora a cada mãozinha pequena, cada passinho desajeitado, cada sorriso inocente e cada olhar puro e inquieto.

Injustiça, taí uma coisa que odeio. Não consigo ver alguém sendo feito de bobo sem tomar partido. Acabo comprando brigas alheias, colecionando inimizades e deixando meu nome cada vez mais vulgar. Mas, afinal de contas, o que é uma pessoa a mais falando mal de mim? Só me machuca quando são pessoas próximas, pois essas sim me fazem desconfiar de que tenho feito algo de errado.

Por mais bobo que pareça, fico feliz em seguir o meu caminho. Porque ele é MEU, ninguém o escolheu (além de mim), ninguém me impôs, ninguém gritou mais alto do que eu . Fazendo errado ou não, eu sigo fazendo o que posso para ser feliz.

"Não há razão para tanto medo. Os dias não vão em vão. Se o teu vídeo não virou viral, valeu a festa. Se o teu astral não vai assim tão bem, vá ler um livro. Um grande dragão não mete medo se o herói for Dom Quixote. Se o teu traço não é assim tão bom, valeu o risco. Se a tua história vem do coração, valeu a pena.  Um cavaleiro morre, o nome dele não. O tempo escorre, dias não são em vão. "


Um bom dia, meus negros lindos
xoxo


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Vem e vai

É quase como uma maré, que vai e volta.... ininterruptamente. 

Algumas vezes nem percebo que chegou. Só meu dou conta de sua presença dias depois, quando ele já ocupou minha cabeça de tal forma que só consigo pensar nele. Outras vezes ele vem como uma onda incontrolável. O que resta é esperar e tentar fazer de conta que ele não está ali. Ele tem uma necessidade compulsiva de atenção.

Mas o pior é quando dói. Começa como uma dor fininha, aguda e persistente. Aos poucos vai ficando mais forte, mais ousada, a ponto de rasgar meu peito e todas as promessas que fiz a mim mesma de não mais chorar.

E da mesma forma que ele chegou ele vai embora, levando consigo mais uma meia-dúzia de promessas vãs e a esperança de que ele não mais retorne.

Mas ele volta... ele sempre volta.

E eu sempre busco uma maneira de deixá-lo de lado (definitivamente).

Talvez as pessoas não vejam. Talvez as pessoas não querem ver. Ou talvez seja mais cômodo não falar sobre isso. A dor alheia é pequena demais para  a tomarmos para si. É melhor cruzar a calçada e passar pelo outro lado, para não sentir o cheiro inconfundível que emana de um coração solitário. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Funk, Valesca Popozuda e essa gente com falta de cultura

E eis que o funk explode no cenário nacional. O que antes era tido como um movimento das favelas, de gente pobre e sem acesso à bens materiais caros, hoje em dia enriquece uma meia dúzia de MC's que falam sobre carros de luxo, mansões com orgias de mulheres e bebidas e cordões de ouro. Mas eu acho que já vi esse filme.... alguém se arrisca a palpitar? Quem pensou no rap americano, acertou. Um movimento que mudou sua estrutura, suas letras e a vida de uns poucos afortunados.
Outra pessoinha que despontou do nada na televisão e ganhou o carisma de uns (e a fúria de muitos) foi a Valesca Popozuda, que não apenas diz que sua pussy é o poder como também consegue fazer o clipe musical brasileiro mais caro de todos os tempos. 
Então, aqui no sul do sul, a gurizada começa a escutar em suas caixinhas de som (enquanto andam de bicicleta) esse tipo de música. E eis que surge (de dentro da universidade [e do facebook]) um bando de gente falando que isso não é cultura, que é baixaria e etc. Dizem que não é cultura porque os mc's cantam sobre uma realidade que não é a da favela. Mas essas mesmas pessoas que falam isso são podres de ricos e escutam Emicida, idolatrando o cara. Mas.... calma aí. Quantos de vocês já viram uma favela? Já entraram em uma? Já passaram fome algum dia?
Ainda falo mais: dizem que funk não é cultura mas nunca leram algo mais complexo do que a Veja. Shakespeare passou longe desse corpo. Machado de Assis? Érico Veríssimo? José de Alencar? É que nem caviar: nunca viu nem leu, só ouve falar.
Então keep calm e deixa de recalque, meu povo. Chega de falar que funk não é cultura, que novela aliena, que telejornal emburrece. Eu assisto novela, BBB, ouço funk e nem por isso deixo de ser uma das pessoas que mais lêem no meu círculo de amizades. Chega de achar que só o que presta é o que vem de fora, até porque as musiquinhas que ouço vocês cantarolando (em inglês) possuem a letra bem parecida com as do mc guimê. 

Uma boa tarde, meus negros lindos
xoxo

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Olho de gata

"E quando ela passa eu acho tudo massa, e é só ela que tem graça (e é só ela)
E quando ela veio me acertou em cheio! E eu caía em devaneio, e eu caía...."

A chuva forte da noite anterior esburacou todas as ruas da praia. Nada além do comum: bastam alguns pingos a mais para deixar todos os moradores ilhados. O quarto, quente e embaçado, era um convite para ficar na cama. "Hora de acordar e encarar a vida. De novo. E não me olhe com esses olhos julgadores porque tu pode ficar dormindo o dia todo, seu ingrato!" O pobre gato limitou-se a virar para o lado e dormir novamente. Olha o relógio. Oito da manhã. "Droga. Vou ter de caminhar até a faixa e pegar um ônibus qualquer. Depois, mais quinze minutos de caminhada". Confere a carteira: dois reais. O suficiente para comprar um pão de queijo, mas não uma passagem. O que restava era pedir carona e torcer para alguma alma caridosa apiedar-se dela.
Veste-se com pressa, ajustando as diversas blusas umas sobre as outras. Caminha quinze minutos (longos e ofegantes). "Tenho que largar essa merda de cigarro!". Para na faixa e estende o dedo. Uma chuva fina começa a cair. Um carro grande, esportivo, para um pouco mais a frente. O vidro escurecido desce e revela  o rosto de um homem bonito. Trinta e poucos anos, talvez. Não mais do que isso. O sorriso simpático a atrai e ela entra, envergonhada. "Vais para a faculdade?" "Sim, atrasadíssima!" Começam a conversar e ele conta muitas coisas: médico, também estudara ali alguns anos atrás. Certa vez ele até contabilizou as horas que gastou dentro de  ônibus quando saía de sua casa e ia até o centro. Pediatra, pelo que lembra. Muito simpático, contou-lhe que gosta de escrever cartas. "Eu tenho um blog", lhe dissera. "Eu também." Seu olhar lhe parecia curioso, interessado em saber mais sobre ela.  
A viagem de vinte minutos acaba. Ela lhe diz seu nome completo, e ele faz o mesmo. 
Encontrou-o dias depois no Facebook. Deixou-lhe um recado (visualizado, porém nunca respondido). 
Quem sabe um dia voltem a conversar. Quem sabe um dia ela ganhe um buquê de rosas e uma carta (porém não dele).  Quem sabe um dia ele lembre da menina da carona, que possuía muitos sonhos e nenhum dinheiro. Quem sabe...

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Invisible

Palavras inaudíveis ditas por um certo alguém invisível. Ninguém ouve esse grito de desespero? Ninguém percebe o pobre animal debatendo-se, agoniando em meio à sua solidão? Um gemido surdo, pressuponho.
Tantos outros gritando bobagens à sua volta; Tantos que nada têm a dizer mas mesmo assim não se calam; Tantos sorrisos falsos que não há como ver essas lágrimas verdadeiras. 
Não há como perceber o tamanho do fardo que cada um carrega dentro de si mesmo. Todo o peso do mundo pode caber dentro de umas poucas palavras não ditas. E como conviver com um sorriso que não é enviado a você? "You don't want to be alone"...

Ninguém o quer, convenhamos. Quem aguenta a solidão? Como suportar o peso de uma noite (uma semana, um mês, um ano...) sozinho? Os que afirmam suportar,  na verdade,  estão com umas poucas estacas de segurança e  o teto ameaça desabar sobre suas cabeças. Mas todos fingem não ver isso.  "And now you're on your own.... won't you come back home?"

A vontade de voltar para casa por vezes supera a vontade de vencer, de mudar, de crescer. Mas e quando não se tem um lar de verdade? Quando nem a sua casa parece sua? Aquelas paredes (vistas por anos a fio) agora parecem julgar: você não é daqui. Este não é mais o seu lugar. Vá embora.

Tantos segredos escondidos dentro de quatro paredes. Tantas lágrimas e tantos sorrisos vivenciados por aquelas tábuas de madeira diagonais. Algumas noites de amor (que naquela época realmente era puro), algumas poucas cartas com palavras vazias e uma única promessa: não mais voltar. Não mais voltar para ele. Não mais voltar para aquela casa. Não mais voltar para aquela cidade.

Talvez a chacota da derrota seja pífia se colocada ao lado do medo da mudança. Todos os abraços não dados não são nem um quarto da dor que se sente dentro do seu quarto. 

Levantar a cabeça com a mesma promessa (vazia?): dessa vez vai ser diferente. 

Mas não foi.


Trocas

Nasci e cresci em um mundo no qual as pessoas são facilmente substituíveis, trocáveis, descartáveis. Amores de plástico e amizades de papel, que nada duram, que em nada acrescentam, que valor algum possuem. Um círculo fechado e seleto, que te faz pensar ser especial quando, na verdade, o  único valor que você carrega consigo é o de ser novidade. "Carne fresca", como dizem. O cheiro da novidade atrai os lobos e leoas famintos, em busca de uma nova alma da qual possam se alimentar. Te colocam em um pedestal; na verdade, não passa de um altar de oferendas ao deus do Vazio, na qual o sacrifício é você. 
Esse mundo te faz ficar pior a cada dia que passa. Lembra de como você chegou aqui? Um rosto jovem, um sorriso fácil e umas poucas malas cheias de sonhos. Adentrou o templo no tempo certo: ainda jovem; ainda fresco; ainda inocente. Eu também cheguei assim. Um coração remendado de duas grandes decepções e uma esperança de recomeço. "É dada a hora da mudança". Mal sabia eu que a mudança seria para pior. O terceiro ano começa e tudo o que eu fiz até hoje foi colecionar amarguras, lágrimas, desafetos e vícios. De cara já alerto que não é culpa minha: todos ficam assim quando chegam. Os vícios daqui são uma espécie de boia que te faz ficar acima das ondas; é a corda que te liga com a realidade e o bom-senso. Sem eles, seria fácil demais submergir e ali ficar para todo o sempre. Alguns se agarram de forma tão firme nessa boia que acabam furando-a e afundando por causa dela. Outros, como eu, apenas a seguram com uma mão, para ter a certeza de que tudo fica bem (no final). O problema é que quando estamos tristes tudo demora mais para passar, e o final parece cada vez mais distante. 
Depois que os amigos artificiais te sacrificam e vão-se embora (pois lobos e leões sempre saem em bando para caçar novas presas), a única coisa que te resta é deixar-se ficar abatido e apático ou tornar-se predador. Como sempre fui um ser de reação rápida e pouco tato para coisas superficiais, saio em busca de presas para mim, enquanto meus raptores me julgam e me condenam por abater umas poucas ovelhas doentes. 
Entre permanecer ovelha pelo resto da vida e tornar-me uma leoa com fama de cruel,escolho a segunda opção (por uma questão de princípios). Sempre tive nojo de coitadinhos, de apáticos, de gente com falta de vontade.
Agora observe ao seu redor as matilhas de lobos, de hienas, de leões: quantos estão rindo de você e quantos estão pensando em te devorar nesse exato momento?