quarta-feira, 19 de março de 2014

Quatro anos

Odeio que me considerem uma coitada Odeio. Prefiro que me tomem como alguém inescrupulosa, que não tem pena de ninguém. Prefiro ser a vadia sem coração. Prefiro ser a vagabunda que não olha para quem está pisando. Mas quando alguém me desmonta....

Volta a garota caipira, chorona e carente, que sofreu por amor e tentou virar predadora. Volta o eterno clichê. Mas que culpa tenho eu se todos somos um clichê? Todo mundo é previsível, moço. Todo mundo tem uma história mais-ou-menos-pronta, condensada, que pode ser adquirida em lotes no Walmart. 

Hoje falávamos sobre amor e sexo. E eu lhe expliquei a diferença. Você não entendeu o porquê de eu querer um amor com tanta urgência. E novamente lhe expliquei. Mas os outros amigos, que nem sempre são telespectadores do meu drama, desconhecem os motivos. E novamente eu explico

Imagine você, quase  quatro anos vivendo de aparências. Quatro anos nos quais cada elogio que você ouve só é direcionado a você com o intuito de tentar uma noite de sexo casual. 
Quatro anos sem ouvir um "eu te amo".
Quatro anos sem um SMS de "bom dia". Sem alguém querendo saber se você está com frio. Sem alguém se preocupando com a sua saúde.
Quatro anos sendo recriminada por estar com o cabelo bagunçado. Quatro anos sem receber carinhos sinceros. Quatro anos sem um abraço livre de malícia. Quatro anos sem amor.
Quatro anos sem a certeza de um cheiro. Sem um sorriso familiar. Sem uma mão pra segurar quando você quer dividir os seus medos.

Quatro anos em que eu, em um primeiro momento, tentei me mostrar forte. Quatro anos vividos com o intuito de esquecer tudo o que se passou. Quatro anos de uma menina tentando se passar por mulher, e de alguém que não possuía o mínimo de maturidade emocional para seguir em frente sozinha.  Quatro anos dividindo um teto com a angústia e a falta de amor-próprio.

E na noite de hoje eu resolvo assumir as rédeas da minha vida novamente. Declaro oficialmente minha libertação de toda essa sujeira que até então me amarrou a garganta.  A partir de hoje, volto a ser a mesma menina que saiu daqui. 

E mais um ciclo se encerra.


segunda-feira, 17 de março de 2014

Recalque

"Essa gente que fala mal de mim. Aí, ó: tudo recalque!"

Valesca cantando "keep calm e deixa de recalque" é a consolidação oficial do que eu (carinhosamente) chamo de culpabilização do outro. É um fenômeno social que venho observando há alguns poucos anos, e que me deixa deveras intrigada sobre seu surgimento e consolidação.  Já dizia o Bauman que vivemos em um mundo líquido, onde as interações sociais e as relações afetivas estão cada vez mais rápidas e menos estáveis. Percebi há tempos essa característica, que grita aos meus ouvidos cada vez que a  vejo: culpar o outro pelos seus erros. Não é um fenômeno contemporâneo, tendo em vista que a prática de jogar a culpa em alguém vem sendo exercitada desde os primórdios da humanidade. Mas agora temos uma mutação dessa prática: não basta apenas jugar a culpa em um terceiro. O que as pessoas estão fazendo é atribuir um sentimento de mediocridade ao outro, fazendo com que este seja desacreditado e ridicularizado. 

"Falam mal de mim porque me invejam"

Tem certeza de que te invejam? Vejo gente que não tem um pinto para dar água, vive uma vida cretina de tão ridícula e faz a vida falando que é invejada.  Vão te invejar em quê, criatura? Invejar teu cabelo ruim? Invejar a tua casa caindo aos pedaços? Invejar teu emprego de salário mínimo? Invejar tuas roupas horrorosas que em nada lhe assentam? As pessoas invejam coisas bonitas, acredite. E eu não estou desmerecendo ninguém com isso: só acho que se olhar no espelho é bom de vez em quando, né.

Outra coisa: se as pessoas falam repetidamente sobre algo em você, é melhor reconsiderar. E eu não estou me referindo aos cabelos, roupas, peso ou corpo.  Até porque eu seria extremamente hipócrita se eu dissesse para acreditar no que as pessoas falam sobre beleza e tal. Falo de atitudes que fazem quem você é. Será que vinte ou trinta pessoas que te falam algo estão erradas e só você que está certo?

Jogar a culpa no outro tentando ofuscar os seus defeitos é uma atitude mesquinha. É algo digno de quem não tem hombridade para reconhecer seus próprios defeitos e tentar mudá-los. Quem me acompanha de perto nos últimos três anos viu o quanto que eu mudei, o quanto que eu evoluí. Aprendi algumas coisas a duas penas, e não foi fácil ver as pessoas colocando o dedo na ferida e me apontando o problema. Acho que amadureci, no fim das contas. E acho que todo mundo deveria passar por esse processo também.

Um bom dia, meus negros lindos
xoxo

segunda-feira, 10 de março de 2014

Save your scissors

         


             Mais uma segunda-feira pensando e refletindo e desejando não mais estar aqui. Mais uma segunda vazia, como todos sabem. Mas quando todos os dias são vazios já nem faz mais tanta diferença assim.
                Guardar as cicatrizes para alguém que as mereça é realmente tão importante? Em que parte da história foi que minha imensidão se resumiu a uns poucos dados? Nome, idade, algumas fotos e três ou quatro palavras que facilmente me definem.
              Onde foi que escondi todas as minhas angústias, meus anseios, meu medo absurdo de mudar? Em quais caixas guardei minha sinceridade sem mesuras (ou tato, como preferirem chamar), minha vergonha gigante e minha despreocupação com o que pensam de mim? 
             Voltei em algumas esquinas pelas quais passei para tentar encontrar minha inocência, meu perdão fácil e meu sorriso frouxo. A viagem foi em vão.
              Muito embora eu saiba que minhas novas características também constituem o meu "eu", algumas delas eu preferiria não ter adquirido. Qual a necessidade de tanta carência e de tanto desejo por aprovação? Pra quê tanto desejo de ser amada, tantas indagações sobre o futuro (que ninguém jamais saberá o que será)?
             Parece que de uma hora para outra quem reinava absoluta caiu na mais profunda obsolência. E, novamente emergindo da plebe, volta para um posto que nem sabe mais se é tão merecedora assim. Algumas vezes nos atribuem responsabilidades que não são nossas. E são essas as mais pesadas. Tudo o que eu não escolhi e que me foi imposto. Tudo o que eu não queria, mas mesmo assim fizeram comigo.
           Arrancaram minha pureza à tapas, me jogando no limbo do mundo real. Me atiraram em meio ao lixo da realidade, e assim que eu me vi perdida percebi o quão insignificante eu era em meio ao mundo (real ou não). Quem sou eu, além de mais uma?
          Como se definir diferente de tantos outros que também buscam ser diferentes? Como mostrar sua individualidade cativante em meio a um mundo pasteurizado por ideias compradas em pacotes compactos (de 24 rolos)?
         Questões existenciais que em nada contribuem para a minha melhora. Apenas mostram o quão perturbada eu sou por pensar em coisas assim em uma segunda-feira.


Uma boa noite, meus negros lindos.

xoxo

quinta-feira, 6 de março de 2014

Amores virtuais


A cada dia que passa surgem novos aplicativos destinados a encontros, com a promessa de "encontrar homens e mulheres interessantes e perto de você". Algumas redes, já consagradas, contam com milhões de usuários, procurando sabe-se lá o quê. Com tanta gente perto da gente, por qual motivo se procura um relacionamento dentro de uma rede virtual?
A  facilidade da mentira na internet provavelmente seja a grande responsável por tanta gente sozinha. Com smartphones, tablets, notebooks, conexão 24h por dia com alguns milhares de amigos no facebook, como é possível sentir o peso da solidão? Como é possível sentir-se a pessoa mais isolada da face da terra, mesmo em um campus onde circulam cerca de oito mil pessoas todos os dias?
Criar uma vida virtual, na qual só se tem adjetivos bons e fotos bonitas, um cabelo arrumado, uma vida saudável e boas opiniões políticas. Criar uma imagem de boa moça, casta, inteligente, higiênica e sem vícios. Loira, magra, cabelos lisos, seios firmes porém fartos, preferencialmente virgem (mesmo aos 22 anos), que tenha horror à drogas e bebidas, que não saia de casa (porém não reclame quando seu consorte resolver sair com seus amigos para beber uma cerveja, afinal de contas ninguém é de ferro)
Criar padrões de um homem que seja  moreno alto, bonito, sensual, (que seja a solução dos meus problemas), com um bom emprego, que vise um crescimento exponencial em poucos anos, estabilidade financeira (com um salário algo, claro), inteligente, que  me ame sobre todas as coisas e que tenha todos os dentes dentro da boca. Cristão, de preferência, sem vícios, que deteste drogas, álcool e cigarro, que tenha bons hábitos de higiene, que não tenha nenhuma doença venérea,  que ame cachorros, gatos e crianças.
Padrões tão absurdos, porém tão intrínsecos em nosso cotidiano, que caso alguém fuja a um ou dois detalhes já será descartado de cara.
Num desses novos aplicativos, o Tinder, a superficialidade (seria essa a palavra?) é tão escrachada que as únicas coisas que aparecem são o nome da pessoa, a idade, uma foto e as opções "passa" ou "pega". Sério mesmo que eu instalei isso no meu celular? Sério mesmo que eu, alguém que há anos milita contra a ditadura da beleza e os padrões ridículos impostos pela mídia (porém aceitos de braços abertos pela grande maioria das pessoas) usei esse aplicativo?  As coisas vão ficando cada vez mais difíceis de contornar. 
"Ai, mas eu não suporto homem gordo"
"Odeio gente que fuma"
"Tenho pavor de pernas peludas"
"Homem baixinho não me serve"
"Mulher alta é uó"
"Gosto de meninas baixinhas, magrinhas, cabelo liso, loiro de preferência. Claro que nenhum amigo meu pode ter pego, claro, porque ficar com mulher rodada não dá né rs rs rs "
Gosto é como cu, cada um tem o seu. E nesse ponto eu sou obrigada a concordar. Mas o que acontece quando todas as pessoas pensam iguais, afunilando seus ideais de forma a pensarem  e desejarem exatamente o que a Tv (e o Youtube, e o Instagram, e o Facebook, e a PlayBoy) te oferecem?
Pessoas normais possuem vícios. Homens normais não possuem um pau de 30 cm (mole), o bíceps maior do que a sua perna e um sorriso perfeito. Mulheres normais possuem celulite, estrias, perna cabeluda e também peidam.
E sim, prefiro terminar o texto sendo curta e grossa do que continuar iludindo todo mundo.
A foto escolhida foi uma da Barbra Streisand. Linda, com uma voz magnífica e  a vida toda atormentada para a realização de uma rinoplastia desnecessária. E, mais uma vez, comecei um texto de uma forma e terminei com mais um desabafo.

E uma boa tarde, meus negros lindos
xoxo