Eu, carne-e-sangue que sou, começo sempre pelo olfato. O sentido mais renegado assume para mim proporções dantescas, e sempre que possível fecho meus olhos e deixo-me envolver pela sinfonia de odores que me cercam.
O segundo passo é o contato visual. Meu lado masculino fala alto, e de repente me vejo contemplando e mirando de uma forma que os deixa constrangidos. Também pudera: procuro absorver cada detalhe, cada centímetro de pele e cada espaço entre nós. A visão é minha suprema guia, e talvez o meu maior pecado seja justamente amar o que me é belo. Neste ponto saliento que não sou hipócrita, e que a relativização da beleza me exime (um pouco) da culpa que ~supostamente ~ depositam em mim.
Depois disso, o que resta é deixar a natureza seguir seu rumo e a química dos feromônios fazer seu trabalho. Quanto à audição, pouco importa: não sou fã de palavras vazias ou de sons programados. Por vezes, o melhor é o silêncio: nesse meio-tempo até a respiração ofegante vira poesia.
O toque da pele e o calor das mãos no mais absoluto escuro também fazem parte da dança, muito embora eu use - o escuro - mais como refúgio do que como ferramenta.
Apenas com um o claro se torna confortável o suficiente para eu me despir de meus medos e vestir minha roupa de viver.
Apenas com um os cheiros se misturam e se fundem e se confundem que eu já nem sei mais qual cheiro eu tenho ou ele tem: sei apenas que há um cheiro nosso, e esse é o meu perfume favorito.
Apenas com um o paladar se faz presente, e o gosto que sinto é, sem sombra de dúvidas, o sabor da perfeição. Aquele rastro doce no fundo da boca que me faz querer mais e mais e mais e mais
Apenas com um minha pele derrete, meus dedos se entrelaçam e eu mergulho em um mar castanho-avelã repleto de ilhas fantasiosas. E é ali que eu gostaria de ficar o resto da minha vida.
O mundo real perde o sentido; minha existência ali é outra, além de qualquer ciclo material ou racional que o homem já criou.
Um quarto em três por quatro, uma cama no canto e o desejo de que tudo lá fora não passasse de um sonho ruim, onde basta eu cruzar meus dedos com os dele para que todos os meus problemas desapareçam.
E, ao soltar a minha mão, é que percebo que a realidade do mundo real não é assim tão doce, e que as utopias sim que deveriam ser reais (mais do que as faço): meus sonhos em cor-de-rosa com uma casa de cerca branca e um labrador correndo no quintal não passam disso. Sonhos. Fantasias. Utopias. Regalias que me permito diariamente, no frenesi de tê-lo para mim antes que o ano acabe e o vento da vida adulta o sopre para longe daqui.
Mesmo que tudo o que imagino (e vejo e prevejo e ansejo) seja fruto de uma mente um pouco fértil demais
Um pouco apaixonada demais
Um pouco abandonada demais
Um pouco solitária demais