sábado, 16 de agosto de 2014

dormingo

   Sentada no sofá por sabe-se-lá quanto tempo, tomo um gole de minha xícara de café que me parecia fervente há poucos minutos atrás. Minha solidão é marcada pela inércia. Absorta com as visões das figuras nas marcas da madeira, vejo as horas me escapando como areia fina que escorre por entre os dedos. Uma ampulheta invisível, que me mostra o pouco tempo restante que tenho e o quão devagar ele passa. Os dias se tornam cada vez mais longos, e os anos cada vez mais curtos. Já estamos em agosto e eu não sei o que fiz das minhas promessas de ano-novo. Guardei as sementes de romã em alguma bolsa, que provavelmente já foi posta fora (não antes das sementes). Olho para os meus pés: de qual ex será que eu herdei essas pantufas? Seriam no cara do chevette ou daquele que tinha uma rinha de galos nos fundos de casa?
      Desde já quero deixar claro que não me mexo não por falta de vontade,e sim porque não posso. A distância entre o poder e o querer é imensa, como todos sabem. E eu não posso por motivos que me fogem à razão. Pareço um personagem tragicômico dos desenhos animados, que corre desesperadamente sobre a areia movediça e vai afundando enquanto a plateia se deleita e dá risada. E olha só, o café já esfriou novamente...
      No sul do sul, onde o mar também é pampa e a umidade é tamanha que sinto meus ossos congelando. Na cidade que Deus não vê chove por uma semana sem parar e tudo o que consigo pensar é na minha roupa no varal que não seca nunca. As unhas lascadas são uma breve lembrança de dias em que estive melhor (financeiramente e todo o resto). decadence avec elegance, por favor. E eu sei que já é dia 16, faltam apenas 14 dias pra eu receber de novo. Unha vermelha lascada nem na pior situação possível porque afinal de contas eu não sou obrigada... mas hoje eu tô cansada, amanhã compro acetona e limpo essa merda aqui.
       Como assim acabou o café? Sair de casa não é uma hipótese plausível. Nem é tanto pela chuva (que cai ininterruptamente há cerca de 80 horas), é mais por uma questão de princípios. Se eu sair, vou ter de tomar banho. Se eu tomar banho, vou ter que vestir uma roupa limpa. Que porra de depressão é essa em que se fica de banho tomado e cabelos penteados? Essa juventude, essa juventude... na minha época depressão era sinônimo de passar dias sem tomar banho e nem tirar o pijama... os cabelos despenteados e o cheiro de carniça são um estilo de vida, cara.... a geração Valium tá aí pra provar....
        Folheio mais uma vez o panfleto da loja de móveis e eletrodomésticos... acho que até já decorei os preços. Há quanto tempo que não levanto desse sofá ein? Minha bunda já está ardendo...ah, sim, preciso comprar um sofá novo que esse aqui está me machucando. Deixa eu ver um aqui nesse panfleto da loja de móveis e eletrodomésticos.De novo. 
        De repente, presto atenção na televisão: começou o domingão do faustão. Ufa, finalmente... achei que esse domingo não iria acabar nunca. Bora tirar a roupa da máquina de lavar que amanhã já recomeça minha semana monótona e sem descanso, onde eu, pobre coitada que sou apenas mais uma peça na máquina que eles controlam (sim, eles!), vou trabalhar  para pagar cerca de 40% de impostos (acho que foi isso que o cara da tv falou essa semana no jornal) para eles (sim, eles de novo!). O único dia que tenho para descansar é o domingo, e tenho tantas coisas para fazer que nem descanso direito, poxa...