Dizem que gaúcho tem mania de grandeza: que acha que tudo o que é daqui é melhor, a começar pela cultura. Mas, minhas crianças, reparem bem: nossa cultura chama a mulher de "prenda". Prenda quer dizer presente, dádiva. Que maravilha! Que coisa mais linda! A mulher é considerada um presente. E não para por aí.
Tomamos chimarrão todos os dias. Baita hábito saudável. E temos nessa sentença mais uma palavra típica do vocabulário gaúcho: "baita", e nesse rol inclui-se "barbaridade", "louco de bom" "guri" e "guria", e por aí vai. Quem nunca teve um cusco que atire a primeira pedra. E quem nunca passou pelo "frio de renguear cusco"? Me divirto com nossas expressões regionais, confesso.
E os CTG's? Centro Tradicionalista Gaúcho. Maxixar era crime, deusulivre. Se o patrão visse já te dava uma cutucada e na segunda cutucada era expulso do baile.
Lembranças da minha infância: casa da vó, frio e a geada cobrindo os açudes. O galpão, ao fundo, guardava o cacarejo alegre das galinhas. A vó acordava, botava fogo no fogão a lenha e a água do mate já estava na chaleira de ferro. O vô levantava, ia até o paiol e pegava uma palha de milho. Primeiro palheiro do dia. Café da manhã: cuca, morcela e ovo frito, com queijo e kechmier (não sei se é assim que escreve). De almoço era galinhada (eu adorava depenar a galinha) ou costelão na brasa. A brincadeira era subir no pé de joão-bolão ou descer os barrancos de terra vermelha com papelão (o papelão era deixado para trás na segunda descida). Quanto estava quente podíamos tomar banho de açude e montar na Pitiça (a égua do meu vô).
Mais tarde, quando crescida, jogávamos canastra. Só jogava na mesa "dos grandes" depois que se fazia 15 anos. Mate era a mesma coisa: um mate para a gurizada e outro pros adultos.
Na cidade, assistia ao programa Pandorga. Quadro favorito? Texera e Texerão. Jogava sapata, descia de carrinho de lomba (e vivia esfolada), subia no pé de goiaba ou de ingá e soltava pandorga (não era pipa e nem papagaio, era pandorga!). Perto dos 14 fugia com a minha prima para os fandangos ou kerb's. A vó dava chopp pra gente (sempre escondido do pai e da mãe) e enchia a barriga de cuca e linguiça.
Minha geração se orgulha de cantar seu hino e a o canto alegretense, de andar pilchado e de levar a mateira para a faculdade ou trabalho.
Somos assim, crescemos assim. Os politicamente corretos dizem que não existe uma cultura melhor do que a outra: que todas são diferentes. Mas eu diria que a gaúcha é uma das mais (se não a mais) bonita do mundo.
Uma boa noite, meus negros lindos
xoxo