sábado, 3 de agosto de 2013

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Abre a geladeira: um pote de margarina pela metade e uma jarra com água. Abre o armário: um pacote de macarrão tipo  lámen e um pote com milho para pipoca. Abre a carteira: vazia. Senta-se no sofá, toma mais um pouco de seu café (agora frio) e chora. Chora para o vazio da sala, para as paredes descascando e para o tapete sujo de areia. Limpa as lágrimas, dá dois tapinhas no rosto para ver se volta à realidade e pensa. Começa a maquinar, arquitetar algum plano cabuloso para dar fim à miséria. Uma promessa de depósito,uma conta-corrente no negativo e uma demissão inesperada. Acontece, acontece. Calma. Pensa devagar que para tudo dá-se um jeito. Foca na segunda-feira: segunda tu vais ter dinheiro. Sossega. Só mais 48h até a próxima refeição de  verdade. Tu aguenta, já aguentou coisa pior. Porra, o cigarro tá acabando. Agora sim fudeu. Dorme um pouco, vai ver a fome passa. Não, melhor: liga pra alguém. Pede dinheiro, tu sempre emprestou de boa-vontade, ninguém vai te negar agora. Não, melhor não ligar. Ninguém precisa saber que tu tá na merda. Deixa assim.  Sobre o convite para jantar, diz que estás com dor de barriga, comeu algo que não te caiu bem. Eu sei que tu estás com fome, mas deixa para comer amanhã. A segunda chega e leva embora esse desespero. Deixa de ser burra, não fala nada pra ninguém. Disfarça, ué. As pessoas odeiam saber dos dramas dos outros: mal se aguentam com os seus próprios.