domingo, 25 de agosto de 2013

Primeiro surto

 A convivência com Vitor tornava-se a cada dia mais estreita. A sua companhia me bastava, e sentia que, entre nós, havia apenas amor. Minha mãe ligava-me com frequência, e nas vezes em que eu me encontrava em sua companhia sempre inventava uma história descabida para explicar os barulhos que ele fazia. Ele não conseguia parar quieto, e demandava atenção constante. Algumas vezes ele insistia em conversar comigo enquanto eu falava com minha mãe, o que a deixava a cada dia mais desconfiada. O final do semestre se aproximava, e liguei para ela:
-Mãe, vou pra casa semana que vem.
-Que bom, Carol. Que dia tu vens? Quer que eu te mande dinheiro para a passagem?
-Não precisa, mãe. Eu vou de carro com o Vitor...
-Vitor? Quem é Vitor?!
-Calma mãe, semana que vem tu vai conhecer ele...
 Os dias se passaram em uma velocidade mórbida. A angústia da proximidade da viagem estava deixando todos loucos: eu, Vitor e seus pais.
O dia derradeiro chegou, e os 350 km que separavam minha casa da cidade onde eu estava morando parece que se estenderam. Vitor odeia ficar muito tempo trancado dentro de um lugar. Paramos em um posto de gasolina para "esticarmos as pernas" e para que ele pudesse se acalmar um pouco. 
Quando faltavam apenas dez minutos para nossa chegada, liguei para minha mãe e avisei que os pais dele nos acompanhavam. Cheguei em casa, abri o portão com a  chave que eu ainda guardava e adentrei a cozinha. Eu estava nervosa, transpirando horrores apesar do vento fresco que varava a cidade no fim de tarde.
-Oi mãe....
-Oi filha! Cadê tuas visitas?
-Calma mãe...antes de tu conhecer o Vitor, quero que tu saiba que não é o que parece, e que depois vou te contar como eu o conheci...
-Como assim?!- grita minha mãe,obviamente nervosa por minhas palavas.- Que tipo de cara é esse?
-Espera, vou te mostrar...
O choque que minha mãe levou foi tamanho que ela sentou-se na cadeira, com um baque. Ela, que esperava ver adentrar um homem, se surpreendeu com o tão inusitado convidado:
Um garotinho de 11 anos, loiro, com os cabelos revoltos e os olhos da cor do mel. O corpo, pequeno e frágil, estava coberto com uma camiseta dos Looney Tunes e uma calça de pijamas. As mãos, tão delicadas, seguravam  minha camiseta com uma força surpreendente. Os olhos tão profundos quanto um lago estavam procurando um porto seguro, algo conhecido em meio àquele lugar estranho. A pele era muito alva, denunciando sua fragilidade.Ele se escondia atrás de mim, obviamente incomodado com aquele lugar tão diferente daqueles que costumava frequentar. Minha mãe não esperava que eu chegasse em casa com uma criança autista.

[continua. Ou não...]