A cada dia que passa surgem novos aplicativos destinados a encontros, com a promessa de "encontrar homens e mulheres interessantes e perto de você". Algumas redes, já consagradas, contam com milhões de usuários, procurando sabe-se lá o quê. Com tanta gente perto da gente, por qual motivo se procura um relacionamento dentro de uma rede virtual?
A facilidade da mentira na internet provavelmente seja a grande responsável por tanta gente sozinha. Com smartphones, tablets, notebooks, conexão 24h por dia com alguns milhares de amigos no facebook, como é possível sentir o peso da solidão? Como é possível sentir-se a pessoa mais isolada da face da terra, mesmo em um campus onde circulam cerca de oito mil pessoas todos os dias?
Criar uma vida virtual, na qual só se tem adjetivos bons e fotos bonitas, um cabelo arrumado, uma vida saudável e boas opiniões políticas. Criar uma imagem de boa moça, casta, inteligente, higiênica e sem vícios. Loira, magra, cabelos lisos, seios firmes porém fartos, preferencialmente virgem (mesmo aos 22 anos), que tenha horror à drogas e bebidas, que não saia de casa (porém não reclame quando seu consorte resolver sair com seus amigos para beber uma cerveja, afinal de contas ninguém é de ferro)
Criar padrões de um homem que seja moreno alto, bonito, sensual, (que seja a solução dos meus problemas), com um bom emprego, que vise um crescimento exponencial em poucos anos, estabilidade financeira (com um salário algo, claro), inteligente, que me ame sobre todas as coisas e que tenha todos os dentes dentro da boca. Cristão, de preferência, sem vícios, que deteste drogas, álcool e cigarro, que tenha bons hábitos de higiene, que não tenha nenhuma doença venérea, que ame cachorros, gatos e crianças.
Padrões tão absurdos, porém tão intrínsecos em nosso cotidiano, que caso alguém fuja a um ou dois detalhes já será descartado de cara.
Num desses novos aplicativos, o Tinder, a superficialidade (seria essa a palavra?) é tão escrachada que as únicas coisas que aparecem são o nome da pessoa, a idade, uma foto e as opções "passa" ou "pega". Sério mesmo que eu instalei isso no meu celular? Sério mesmo que eu, alguém que há anos milita contra a ditadura da beleza e os padrões ridículos impostos pela mídia (porém aceitos de braços abertos pela grande maioria das pessoas) usei esse aplicativo? As coisas vão ficando cada vez mais difíceis de contornar.
"Ai, mas eu não suporto homem gordo"
"Odeio gente que fuma"
"Tenho pavor de pernas peludas"
"Homem baixinho não me serve"
"Mulher alta é uó"
"Gosto de meninas baixinhas, magrinhas, cabelo liso, loiro de preferência. Claro que nenhum amigo meu pode ter pego, claro, porque ficar com mulher rodada não dá né rs rs rs "
Gosto é como cu, cada um tem o seu. E nesse ponto eu sou obrigada a concordar. Mas o que acontece quando todas as pessoas pensam iguais, afunilando seus ideais de forma a pensarem e desejarem exatamente o que a Tv (e o Youtube, e o Instagram, e o Facebook, e a PlayBoy) te oferecem?
Pessoas normais possuem vícios. Homens normais não possuem um pau de 30 cm (mole), o bíceps maior do que a sua perna e um sorriso perfeito. Mulheres normais possuem celulite, estrias, perna cabeluda e também peidam.
E sim, prefiro terminar o texto sendo curta e grossa do que continuar iludindo todo mundo.
A foto escolhida foi uma da Barbra Streisand. Linda, com uma voz magnífica e a vida toda atormentada para a realização de uma rinoplastia desnecessária. E, mais uma vez, comecei um texto de uma forma e terminei com mais um desabafo.
E uma boa tarde, meus negros lindos
xoxo
