segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Fluorescência

        E de repente me vem aquela brisa leve, acolhedora e mansa que só tu pode me trazer. Os meus olhos embaçam por um pequeno instante, talvez inundados com a maresia calma e doce que tu me traz. 
       Teu cheiro doce por vezes me enjoa. Desculpe-me se sei que não és perfeita.. Convenhamos que o teu gosto também já foi melhor. Depende do teu dia, eu sei. Tu tens diversos momentos e casualmente nos encontramos quando estás naqueles dias ruins. Não é culpa tua, e sim dos outros que te transformam tanto a ponto de ficares irreconhecível. Depois de ti, ouço todos os milhares de pássaros que passaram o dia todo cantando ao meu redor e que eu sequer tive a capacidade de parar para ouvir. Eles estão conversando conosco...
         O sol parece mais perto e a lua parece maior. Sinto o cheiro da chuva e o gosto da terra. Sei que, a partir de agora, tudo ao meu redor fica mais bonito: os rostos me parecem mais alegres, os problemas viram estrelas distantes e o tempo se molda facilmente em minhas mãos. Volto a ser um eu primitivo, consciente,  que é capaz de enxergar  tudo o que está acima das nuvens e que não é visível a olho nu. 
           Faço de mim mesma corredor do mundo, e deixo que os pensamentos pousem e decolem a hora que quiserem. Já não sou mais apenas eu: somos nós, somos o outro e, sobretudo, somos um todo uniforme e multicor.  Meus pensamentos passam por mim em uma velocidade assustadora; mas quem sou eu para lhes dizer a hora em que devem partir? Cada um que cuide de seus horários e de seus ritmos...
        O ritmo é que coordena o andamento de meu dia. Podem ser apenas quatro horas da tarde quanto já pode ser meio-dia.... e o meu tempo também não é mais meu.
      Nem dona de meu corpo sou mais: ele se movimenta de um jeito próprio, independente, como se o meu cérebro fosse destituído de seu cargo máximo por mero capricho do resto das células. Cada uma com sua ideologia, e sempre que possível, alheias à minha vontade.
         Quando tu vai embora (quase sempre sem se despedir), viro os olhos  e penso que, para te ter de volta, bastam alguns movimentos de minhas mãos. E assim o ciclo recomeça.

uma boa tarde, meus negros lindos
xoxo