What if I can't be all that you need me to be?
Ele dizia gostar dos meus cabelos, das minhas roupas, da minha sinceridade e da forma como eu abraçava o ursinho de pelúcia quando eu dormia. Eu gostava do cheiro, de seu cabelo que era sua marca registrada e do som de sua risada. Quase como água e vinho, preto no branco. Dois opostos que orbitavam em busca de um amor qualquer.
Crianças irresponsáveis. Ele conhecia o mundo todo, e eu tinha medo de ir até a esquina.
Ele falava sobre política, religião, anarquia e outras formas de governo, e eu mal conseguia arrumar meu quarto.Ele usava perfume importado, e eu tinha preguiça de passar hidratante no corpo. Meu armário, bicolor, guardava poucas peças que variavam entre preto e branco. Já o dele, closet feito sob medida, abrigava pilhas e pilhas de roupas ainda nem usadas.
Seu celular de última tecnologia recebia minhas chamadas a cobrar. Na frente de seu notebook (o melhor do mercado), ele passava horas e horas teclando comigo,enquanto eu tentava dar um jeito de colocar o espaço entre as palavras, visto que meu notebook (que nem webcam possuía) havia perdido algumas teclas pela vida.
Enquanto ele conversava com todos aqueles amigos lindos e glamourosos e aquelas amigas elegantes e educadas, eu mascava meu chiclete enquanto lia Hamlet. Meu all star (que um dia fora branco)contrastava com aqueles tênis novinhos, brilhando de tão limpos.
Eu ouvia rock, ele escutava pagode.
Eu lia literatura clássica, ele gostava da TiTiTi para acompanhar a sua novela. Sim, ele assistia novela.
Seus dedos com aquelas unhas bem-feitas entrelaçavam-se com os meus, com as unhas vermelhas descascando. Enquanto eu o abraçava, meus cabelos negros entrelaçavam-se com seus fios loiros. No reflexo daqueles olhos azuis eu via a verdade, a paz e a pureza de todos os sentimentos. Ao olhar para cima, buscando seus lábios, sentia duas mãos grandes afagando os cachos de meus cabelos e os dentes absurdamente brancos sorrindo para mim.
Enquanto ele rezava por mim antes de dormir, eu discutia com Deus sobre as coisas que até então passavam-se na minha vida.
Ele percorria a estrada que ligava minha cidade à capital todos os dias. Porto Alegre nunca foi tão longe e tão linda...
Pode ser que, de repente, o que nós sentíamos fosse amor...
Agora milhares de km nos separam. Algumas palavras que não foram ditas, outras que jamais deveriam ter sido pronunciadas, um punhado de meias-verdades e uma constatação: a tua menina do interior já não é mais tua...e muito menos menina.
Fragile bird, voou para longe e não tem pretensões de voltar para teu mundinho que (agora vejo) é tão limitado. Todo teu dinheiro jamais vai comprar sentimentos honestos como aqueles que eu te dei sem pedir nada em troca.
Au revoir, mon amour....Não olha para trás, pois a poeira que deixaste ao partir emporcalhou todo meu jardim que eu tanto havia cuidado.
