Entender-me tem se tornado cada vez mais complicado. Não consigo mais prever quais serão minhas atitudes (coisa que outrora eu fazia e com maestria). Uma espécie de véu cobre meus olhos. Não mais reconheço aqueles olhos no espelho. Eles continuam da mesma cor que os de antes, um mais claro e outro mais escuro, mas ao redor deles a maquiagem tornou-se mais suave e já vejo pequenas marcas que o tempo está deixando. Meus lábios, que antes abriam-se com facilidade, agora vivem crispados, desaprovando quase tudo que vê por aí. Meus pés, que adoravam correr na beira da praia, hoje cansam-se com relativa facilidade. Até meus cabelos mudaram.
Dia desses vi um fio branco no meio das melenas castanhas. Foi quase um balde de água fria. "Merda, eu já tenho 21 anos". Há poucos dias atrás eu sonhava com meu aniversário de 15 anos. Ontem mesmo eu delirava em minha cama, olhando para o teto com estrelinhas coladas e pensando em como eu seria quando tivesse uns 20, 21 anos. E hoje cá estou eu:cerca de 30% bibliotecária, ainda acima do peso, com pelo menos sete vícios para sustentar e cheia de responsabilidades. A vida adulta adulterou minha essência: o frenesi do meu cotidiano adicionou doses etílicas cavalares aos meus finais de semana, mais nicotina e menos bala de goma.
Estou bem mais dura, mais cruel, mais rancorosa, mais amarga....menos doce. Menos eu.
Quando eu aprender a me amar de verdade, talvez possa prever novamente minhas atitudes...
"roupas no varal
chuva de verão
Os dias soltos no quintal vão me dando a direção
Se você perguntar o que eu fiz
Se você quer saber o que eu quis
Ah, o tempo passa e eu penso demais
Pra dizer ao vento que me satisfaz
E eu minto
Quartos de hotel
Pra alguém que se perdeu...."