segunda-feira, 20 de maio de 2013

O livreiro

Cansada da aula e do trabalho, sai pela avenida em torno das 21:10. Os passos compassados, ritmados por uma canção qualquer do The Cure, movem-se rapidamente pelo pavimento úmido da ciclovia. Faz frio, venta, a umidade presente no ar deixou-a doente nos últimos dias... o inverno aproxima-se sem trégua. Noites mais frias virão.

Acende mais um cigarro, fecha a bolsa, solta os cabelos e viaja em seu universo particular. De repente, avista-o. Sozinho, com os cabelos compridos, sentado em sua cadeira com seus livros abertos na mesa de madeira improvisada. Não resiste em dar uma olhada.  Aproxima-se, tira os fones do ouvido e analisa as capas ali presentes. Uma chama mais a sua atenção: um título de Garcia Marquez, com a capa remendada, livro com cara de sebo.

-Moço, quanto custa esse aqui?
-Vinte reais.
-Mas tudo isso? Poxa, esse livro já foi lido. Muito lido, por sinal. Se bem que o Gabriel é demais...vale a pena pagar vinte pila por um título dele.
-Tu conhece ele?
-Claro, li uma obra dele uma vez.Adorei o estilo de escrita.
-E do Paulo Coelho, tu não gosta?
-Bah, detesto! Acho uma literatura muito fraca. Dos brasileiros contemporâneos sou mais o João Ubaldo RIbeiro, Dalton Trevisan, Luís Fernando Veríssimo....
-E o Carpinejar?
-Também não gosto. Nem dele nem do Caio Fernando Abreu. Sei lá, esse tipo de crônica não me desce de jeito nenhum.
-Mas o que é uma crônica?
-Olha, eu entendo por crônica alguma história curta que relate fatos do cotidiano. Se bem que nem sei direito no que se encaixam meus textos...não posso te dar certeza da minha informação.
-Mas tu escreve?
-Olha, eu penso que escrevo. Se os outros gostam ou não, aí já é outra história...

Ele ri, observa-a com curiosidade.
-Tu vive só da venda dos livros?
-Não, eu também aplico shiatzu.
-Mas e tu consegue viver disso?
-Consigo,porque ainda moro com meus pais.

Ela olha no relógio: 21:30. 
-Moço, preciso ir. Hoje é sábado e eu ainda na rua, sem nenhuma perspectiva de balada hoje.
-Vais levar o livro?
-Posso não moço, tô pobre. Tenho 10 reais.

Ele ainda insiste, puxa assunto, conversa sobre autores brasileiros e americanos. Ela percebe que ele sabe pouco sobre seu produto, mas é muito interessado em aprender.
Ela olha novamente no relógio: 21:45. Fala que vai embora, e ele tem um ar de súplica em seus olhos. "Fica", eles lhe dizem.  Ela insiste que é tarde, acende mais um cigarro e vira-se em direção ao seu destino.

Dá dois passos até que ouve:

-Moça, se algum dia tu tiveres dinheiro e eu não estiver por aqui, pega o meu cartão. Aqui tem meu número. Se tu quiseres eu entrego até na tua casa, ou no lugar que tu trabalha, tanto faz...

Ela dá uma tragada forte, assopra a fumaça e fala:

-Pode deixar, ligo sim.

Vai-se embora, pensando em como será a vida daquela criatura tão humilde e tão carente...