"E quando ela passa eu acho tudo massa, e é só ela que tem graça (e é só ela)
E quando ela veio me acertou em cheio! E eu caía em devaneio, e eu caía...."
A chuva forte da noite anterior esburacou todas as ruas da praia. Nada além do comum: bastam alguns pingos a mais para deixar todos os moradores ilhados. O quarto, quente e embaçado, era um convite para ficar na cama. "Hora de acordar e encarar a vida. De novo. E não me olhe com esses olhos julgadores porque tu pode ficar dormindo o dia todo, seu ingrato!" O pobre gato limitou-se a virar para o lado e dormir novamente. Olha o relógio. Oito da manhã. "Droga. Vou ter de caminhar até a faixa e pegar um ônibus qualquer. Depois, mais quinze minutos de caminhada". Confere a carteira: dois reais. O suficiente para comprar um pão de queijo, mas não uma passagem. O que restava era pedir carona e torcer para alguma alma caridosa apiedar-se dela.
Veste-se com pressa, ajustando as diversas blusas umas sobre as outras. Caminha quinze minutos (longos e ofegantes). "Tenho que largar essa merda de cigarro!". Para na faixa e estende o dedo. Uma chuva fina começa a cair. Um carro grande, esportivo, para um pouco mais a frente. O vidro escurecido desce e revela o rosto de um homem bonito. Trinta e poucos anos, talvez. Não mais do que isso. O sorriso simpático a atrai e ela entra, envergonhada. "Vais para a faculdade?" "Sim, atrasadíssima!" Começam a conversar e ele conta muitas coisas: médico, também estudara ali alguns anos atrás. Certa vez ele até contabilizou as horas que gastou dentro de ônibus quando saía de sua casa e ia até o centro. Pediatra, pelo que lembra. Muito simpático, contou-lhe que gosta de escrever cartas. "Eu tenho um blog", lhe dissera. "Eu também." Seu olhar lhe parecia curioso, interessado em saber mais sobre ela.
A viagem de vinte minutos acaba. Ela lhe diz seu nome completo, e ele faz o mesmo.
Encontrou-o dias depois no Facebook. Deixou-lhe um recado (visualizado, porém nunca respondido).
Quem sabe um dia voltem a conversar. Quem sabe um dia ela ganhe um buquê de rosas e uma carta (porém não dele). Quem sabe um dia ele lembre da menina da carona, que possuía muitos sonhos e nenhum dinheiro. Quem sabe...