Nasci e cresci em um mundo no qual as pessoas são facilmente substituíveis, trocáveis, descartáveis. Amores de plástico e amizades de papel, que nada duram, que em nada acrescentam, que valor algum possuem. Um círculo fechado e seleto, que te faz pensar ser especial quando, na verdade, o único valor que você carrega consigo é o de ser novidade. "Carne fresca", como dizem. O cheiro da novidade atrai os lobos e leoas famintos, em busca de uma nova alma da qual possam se alimentar. Te colocam em um pedestal; na verdade, não passa de um altar de oferendas ao deus do Vazio, na qual o sacrifício é você.
Esse mundo te faz ficar pior a cada dia que passa. Lembra de como você chegou aqui? Um rosto jovem, um sorriso fácil e umas poucas malas cheias de sonhos. Adentrou o templo no tempo certo: ainda jovem; ainda fresco; ainda inocente. Eu também cheguei assim. Um coração remendado de duas grandes decepções e uma esperança de recomeço. "É dada a hora da mudança". Mal sabia eu que a mudança seria para pior. O terceiro ano começa e tudo o que eu fiz até hoje foi colecionar amarguras, lágrimas, desafetos e vícios. De cara já alerto que não é culpa minha: todos ficam assim quando chegam. Os vícios daqui são uma espécie de boia que te faz ficar acima das ondas; é a corda que te liga com a realidade e o bom-senso. Sem eles, seria fácil demais submergir e ali ficar para todo o sempre. Alguns se agarram de forma tão firme nessa boia que acabam furando-a e afundando por causa dela. Outros, como eu, apenas a seguram com uma mão, para ter a certeza de que tudo fica bem (no final). O problema é que quando estamos tristes tudo demora mais para passar, e o final parece cada vez mais distante.
Depois que os amigos artificiais te sacrificam e vão-se embora (pois lobos e leões sempre saem em bando para caçar novas presas), a única coisa que te resta é deixar-se ficar abatido e apático ou tornar-se predador. Como sempre fui um ser de reação rápida e pouco tato para coisas superficiais, saio em busca de presas para mim, enquanto meus raptores me julgam e me condenam por abater umas poucas ovelhas doentes.
Entre permanecer ovelha pelo resto da vida e tornar-me uma leoa com fama de cruel,escolho a segunda opção (por uma questão de princípios). Sempre tive nojo de coitadinhos, de apáticos, de gente com falta de vontade.
Agora observe ao seu redor as matilhas de lobos, de hienas, de leões: quantos estão rindo de você e quantos estão pensando em te devorar nesse exato momento?