Cansei de te falar que as tuas mentiras não mais me bastam. Cansei delas. Aquelas velhas músicas repetindo sempre os mesmos refrões me entediam deveras. Aquele som compassado da tua respiração durante a noite agora me perturba. Teu gosto me anoja. Teu cheiro me dá náuseas. Onde será que foi parar todo aquele carinho que outrora eu sentia por ti?
Ao olhar as tuas velhas fotos, o único sentimento que vêm à tona é pena. Pena de mim mesma por quase ter vendido a minha alma por ti. Pena do desperdício de tempo chorando por tua ausência. Pena por ter passado tantas noites em branco imaginando qual seria teu paradeiro, sem nem ao menos saber porque tu não estavas ali.
Sinto pena de ti, enganando muito mais a ti mesmo do que a mim. Pena do dinheiro, tempo e esforços investidos em vão. Sim, em vão. Desperdício, apenas desperdício....
Minhas mentiras também não são mais suficientes para ti. Nem a mim mesma. Nesse oceano de hipocrisia que a nossa rotina virou penso que nosso verdadeiro eu morreu afogado.
Nadei contra a arrebentação do nosso porto, enquanto tu remavas contra a maré. Quase como tentar subir uma escada-rolante que desce...desce em direção ao vazio de nossa alma. Em que ponto do caminho nos tornamos tão fúteis, supérfluos e ignorantes?
Nós não éramos assim...
Pois bem, lutemos então por novas mentiras. As velhas não mais nos satisfazem como antes... Teu cheiro que infestou meu quarto e meu travesseiro vão custar a sair, mas ainda assim conservo uma foto tua. Quem sabe, um dia, os sentimentos ruins vão embora e fique uma leve saudade daquelas duas crianças que brincavam de imaginar um futuro juntos.
Quem sabe, em algum dia de verão qualquer, aquelas cartas deixem de encher meus olhos de lágrimas e se tornem apenas um registro escrito daquele tempo em que pensávamos que éramos felizes...
Quem sabe?