terça-feira, 5 de março de 2013

Pitangueira (parte II )

Cheguei de surpresa,apenas para trocar os livros que estou lendo. Devolvi dois, peguei mais três (aproveitando-me do fato de a casa estar vazia). Quando estava quase saindo ele chegou. Apenas de passagem, para buscar algumas coisas. Viu que eu estava ali e sequer se importou: eu sempre entro na casa dele sem avisar.

Nem precisou me dizer para ficar à vontade: eu sempre fico. Quando estava quase saindo eu chamei:

-M. , que horas tu volta?
-Bah negrinha, acho que em umas duas horas. Acho.
-Hm... tô pensando...
Ele deu uma gargalhada, me olhou com aquela cara de menino safado e disse:
-Então pensa.
-Tá bom.
Afastou-se e eu chamei de novo:
-M! 
-Fala negrinha.
-Posso?
-Pode.

É sempre assim. Não preciso de muitas palavras para me fazer entender. Tomei um banho, vesti uma camiseta dele e fui até o jardim para ver a pitangueira. Cheinha de frutos que estão muito mais doces do que os do ano passado. Assim como nós dois.

Adormeci de luz acesa com o gato no colo. Acordei com o barulho dele tirando os tênis na sala. Levantei-me, sentei em seu colo e ele me abraçou. Que cheiro gostoso que ele tem! 
Preciso usar aqui as palavras de Alcione: é só melanina cheirando à paixão!

Adormeci em seus braços, já na cama. Acordei com o barulho de sua respiração de madrugada. Me senti assim, sei lá. Feliz. Doce. Calma. Tranquila e completa. Talvez algo diferente disso,talvez exatamente isso. Talvez.

Por hora basta dizer que mudamos: nada de tempestades, nada de guerras, nada de promessas infames. Nada de injúrias, de riscos ou de sangue efervescente correndo pelas veias. Apenas uma suave brisa de verão, que quase não se sente mas sabe-se que ela está ali. 

No jardim, a pitangueira começa a perder algumas folhas...