Hoje em dia a palavra "bullying" já faz parte do cotidiano de todo mundo. De forma muito abrupta, ela entrou no vocabulário escolar, jornalístico, universitário e pseudo-pedagógico para ilustrar o ato de agressão contra alguém. Na minha infância, quando alguém me chamava de gorda, não era "bullying", era apelido. E quando eu chamava alguém de burro, nanico, magricela ou viado também o era. Na minha infãncia, quando as crianças cantavam "gorda, baleia, saco de areia, caiu na piscina de bunda pra cima" não era bullying, era brincadeira. E quando eu cagava as gurias a pau no banheiro da escola também era brincadeira. As coisas se resolviam, em sua maioria, por conta própria, sem intervenção de pais e professores. Foi dolorido? Claro que foi! Mas eu aprendi a não apanhar calada e a me defender.
Na minha infância, quando eu ia brincar na mesma areia que os cachorros na vila faziam xixi e pegava uma virose, em uma semana de soro fisiológico tava tudo resolvido. Eu nunca tinha tomado banho com protex até os meus 20 anos, porque não precisava (e nem queria). Coisa legal era pegar bicho geográfico na mão: as trilhas que ele ia fazendo pela minha palma ficavam ali por dias, até a mãe se ligar do porquê eu estar escondendo a mão dela e me obrigar a passar uma pomada qualquer. Férias na casa da vó? Sinônimo de bicho de pé. Em março havia mil buracos na sola dos meus pés. Alguns eu mesma tirava (achava aquilo demais); os outros, mais profundos, que a mãe tirava com uma agulha (gigantesca) traziam consigo um fiasco de alertar a vizinhança inteira. "parece que tão espancando essa guria!". "que nada! Guria fiasquenta! Só tô tirando um bicho de pé! Já falei que se ela não deixar eu levo no hospital, aí sim vai doer!". Pior do que bicho de pé era farpa de madeira debaixo da unha. Elas ganhavam um apelido carinhoso de "felpa", as quais a mãe tirava com o maior cuidado enquanto eu comia uma fatia de pão caseiro recém feito.
Meus joelhos hoje comprovam a quantidade absurda de tombos que caí. Minhas pernas nunca foram de "mocinha": sempre em carne-viva, com arranhões no joelho e picadas de insetos. E eu estava cagando para as cicatrizes. Aliás, as cicatrizes de catapora (que eu peguei na quinta série) ainda marcam meu rosto e meu corpo. E que coisa bem boa que era coçar as feridas!
Vou nem falar dos piolhos. Sempre tive a sorte de ter "sangue doce" e ser a criança mais piolhenta da escola. "Que raiva! Depois vão achar que eu não dou banho nesse inço, porque tá toda vida minada de piolho. Senta aqui guria, que vou passar o pente-fino pra tirar esse carnaval da tua cabeça!"
Lembro de uma vez, que ganhei um patinete e me quebrei dez minutos depois. Desci a lomba da rua de cima a todo pau, e como não sabia frear acabei aterrizando três metros longe do patinete, em cima de um monte de brita. Nunca mais andei naquela merda. Mentira. No dia seguinte já estava apostando corrida na mesma lomba maldita.
Outra vez, coloquei uma roupa branquinha (ia sair com meus pais), peguei minha bici e me larguei pro mercado (morro abaixo), pra comprar sabe-se Deus o quê. Acabei dentro de um buraco de barro (aberto pela Corsan no meio da rua), lavada de barro e merda dos pés à cabeça. Pior foi tentar desatolar a bici, que também tava toda cagada. A calça nunca mais ficou branca.
Quando a gente brigava na escola, era só se cagar a pau na hora da saída que tava tudo resolvido. E quando a guria era muito maior do que eu, meu pai me buscava, dando risada da minha cara e me chamando de cagona. Porque se eu apanhasse na rua, em casa eu apanharia de novo pra deixar de ser besta.
E hoje eu tô aqui. Bem gordinha. Bem criada. Sei me defender do mundo e não tenho medo de apanhar da sociedade (coisa que acontece todo dia). Já dizia MD2: um dia a gente perde, e no outro a gente apanha.
E eu nunca vou dar banho nos meus filhos com protex.