Pílulas desnecessárias de críticas bem-humoradas, histórias verdadeiras (ou não) e constatações sobre a vida de uma acadêmica da FURG.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Café amargo, café doce, café.
Sempre odiei café com açúcar. Meu café favorito sempre foi preto, sem um pingo de açúcar ou leite. Não me pergunte o porquê disso, que não sei responder. Talvez porque gosto de sentir o sabor verdadeiro do café, a pureza (ou não) do sabor em contato com o palato. Basta o cheiro de café com leite para que eu fique enjoada, sentindo meu estômago reverberando só de pensar em beber aquilo. Sequer a cor me agrada: é uma cor sem definição, uma cor insegura, uma cor sem cor.
Já o açúcar no café me faz sentir basicamente as mesmas coisas, com a diferença de que não basta olhar para o café para saber se há açúcar ali ou não. É preciso arriscar e provar. E o susto do gosto doce no meu café me decepciona. Me faz sentir boba, enganada, trapaceada. Café com adoçante é ainda pior: considero o adoçante uma mentira das mais feias. A princípio, o gosto doce te confunde e te faz pensar que é açúcar, mas aquele rastro amargo que ele deixa no fundo da língua te sussurra ao pé do ouvido : você está sendo enganado. Você está se enganando.
Mas, por uma ironia do destino, eis que surge na minha vida uma pessoa que me dá um mocaccino. Eu odeio mocaccino. Essa mistura sem nexo de sabores, essa indefinição de textura, de gosto. Eca. Mas, para não fazer desfeita, bebi o raio do pseudo-café. E gostei. E gostei muito.
Talvez não seja pelo gosto do café, mas sim pelo significado. Um café dado por alguém faz sentido, mesmo que seu sabor não faça. Agora, ao beber esse café (coisa que já fiz diversas vezes), o que me vem à cabeça não é a mistura igual de café, leite e chocolate-quente. É o rosto da pessoa. É o cheiro dela. É aquele sorriso tímido e as roupas bregas que lhe assentam tão bem. O que me faz sentir desejo de sorver aquele líquido meio marrom, meio branco é mais a vontade de lembrar aquele dia do que seu gosto em si. Um café que deixou de ser café e tornou-se uma lembrança, um desejo, uma vontade. Um café real. E com açúcar ele fica ainda melhor. Mesmo que o amor não venha, mesmo que as investidas sejam falhas e mesmo que não passe de um simples "trouxe um café pra ti", agora há um significado real para ele. Há uma memória em forma de café.
