Parece-me que, cada vez menos, as pessoas estão dispostas a “aturar”
os outros. Os relacionamentos têm se tornado um litígio constante de sexo, bons
momentos e só. Ter alguém para compartilhar também os momentos ruins está fora
de questão. Ora, o ser humano é imperfeito, tipo um pacotinho de bala de goma.
Não há como comprar um que tenha apenas as balas vermelhas: mesmo que sejam as
mais gostosas, sempre tem as verdes que acabamos comendo, naquela ânsia de
chegar logo às maravilhosas balas vermelhas e amarelas. Quem quer apenas as
balas vermelhas de seu parceiro ainda não está maduro o suficiente para um
relacionamento: quero alguém que me ature na TPM, que acorde comigo mesmo
quando eu já não esteja maquiada, com cabelo bonito e salto alto. Quero alguém
que tenha prazer em compartilhar meus momentos de angústia, que goste de andar
de mãos dadas e que não me procure apenas quando eu estiver em bons momentos da
minha vida. E eu também quero alguém com as balas verdes: mesmo sendo azedas, sei
que fazem parte do pacote e seria um desperdício pô-las fora. Afinal, comprei o
pacote todo. Algumas pessoas vêm com mais balas vermelhas, outras com mais
balas amarelas e ainda há aquelas que possuem balas verdes em demasia. Mas,
afinal de contas, quem é que possui apenas as vermelhas? Quero alguém disposto
a salvar meu coração do tédio da minha rotina, que me escute quando eu não
tiver absolutamente nada para dizer e que saiba dividir um sorvete de
casquinha. E tô disposta a aturar mal-humor, ligações não-atendidas sem motivos
aparentes e atrasos sem aviso. Faz parte. E que venham as balas verdes,porque
só balas vermelhas me deixam enjoada com relativa facilidade.
