Era uma vez uma menina que achava que era mulher, um homem que achava que ainda era menino e a carência travestida de amor. Era uma vez uma cama que guardava inúmeras noites de paixões ardentes, conversas sem fim sobre tudo aquilo que se havia criado e discussões intermináveis sobre um ciúme inventado. E era uma vez também um pedido de desculpas em forma de convite,e um perdão em forma de sexo. Era uma vez uma intimidade tamanha que a única vergonha era a de não ser vista. Um afago na cabeça, um pausar de jogo para arrumar os cobertores e um Memórias de um Sargento de Milícias com a capa rasgada. Era uma vez aquele acordar com os sentidos à flor da pele, numa madrugada escura com uma mão curiosa passeando pelo corpo.
Era uma vez um "Me busca? Queria dormir contigo hoje..." que logo foi sucedido por um "arruma as tuas coisas e vai embora, tenho outros planos para a noite de hoje". Era uma vez uma menina que chegou chorando, e um travesseiro úmido de tantas lágrimas. Era uma vez alguém que ficou com medo de amar de novo...
E era uma vez uma conversa com cigarros e café, e uma resolução de não mais ficar com ninguém. Uma penitência, abstinência, conveniência. Era uma vez uma menina que só queria amar e ser amada.
Era uma vez alguém que se sentia feia e excluída, e que procurava em seus vícios uma forma de consolo que só o carinho poderia lhe trazer. Era uma vez alguém que entregava seus afagos ao vazio de seu quarto, ao pensar em por que não eu?
Era uma vez um mês frio que finalmente chegava ao fim, e um coração vazio que ainda espera uma resposta para as suas dores.