" -Eu, ás vezes, fico invisível.Eu disse para o médico e para a médica, mas eles não acreditaram. Eles disseram que eu estava imaginando isso e eu concordei. Mas eu fiquei invisível várias vezes.
-Isso é normal .
-É?
-É, eu já fiquei invisível uma vez..." *
Lendo aquelas linhas, ela pode perceber que também já ficara invisível diversas vezes. Aliás, era assim que ela sentia-se naquele exato momento: invisível.
Os garotos saíam de lá de dentro aos grupos, sempre sorrindo e conversando amenidades. E ela, sentada ali sozinha, percebeu que estava invisível. Acenou para alguns conhecidos,sem obter resposta. Sequer ficou envergonhada: sabia que ninguém ali a via. Acendeu mais um cigarro, olhou para a capa do livro e teve um surto de lucidez: em meio àquele mar de gente, havia muitos outros seres invisíveis.
Quantas pessoas, como ela, não se sentiam solitários o tempo todo?
Quantas pessoas, como ela, se envolviam em uma multidão de pessoas, todas elas acompanhadas por alguém, mas extremamente sós?
Então, ainda invisível, fechou seu livro e observou a todos. Ninguém a via, ninguém a observava, ninguém a cumprimentava. Será que ela enlouquecera? Provavelmente não. Ela realmente era uma menina invisível. Naquele lugar frívolo e supérfluo, não era de se admirar que as pessoas sequer olhassem um elefante branco parado no meio do caminho: simplesmente desviariam de suas rotas, virariam as costas e continuariam absortas em seus próprios problemas. A beleza da rotina lhes escapava aos olhos. As particularidades de cada um eram mascaradas com uma massa cinzenta que lhes encobria a alma e deixava todos assim, iguaizinhos. Caso alguém desaparecesse, ninguém daria por falta, pois logo ele seria substituído por outro exemplar semelhante.
Cansada de ficar ali, jogada à própria sorte, levantou-se do banco, pegou sua sacola de viver e foi visitar outro universo.
*trecho retirado do texto Frontal com Fanta de Jorge Furtado.
Uma boa noite, meus negros lindos.
xoxo
Trilha sonora da minha noite:
http://www.youtube.com/watch?v=zyirFLQMng4