Ontem foi o dia mais marcante de minha vida. O dia em que vi meu pai chorar. Ver um homem daquele tamanho, que até então jamais havia derramado uma lágrima, chorar como uma criança me fez refletir sobre a fragilidade da vida.
Mais triste ainda ainda foi ver aqueles pequeninos dedos, repletos de calosidades por conta das noites intermináveis fazendo crochê, completamente brancos, sem vida, enrugados e frios.
Os lábios, que tantas vezes repreenderam a mim e a meus primos por estragos feitos em suas plantas, estavam então colados. Como ousaram colá-los? Pergunto, indignada. E só então reflito que caso não fizessem isso, eles então se abririam em um grito mudo. Quase paralisada por aquela cena, toco seus cabelos. Brancos, ralos, foram cortados em um ato imbecil (alegaram que daria menos trabalho para cuidar). A pele, enrugada, pálida, opaca, fria.... muito fria. Na verdade, gelada seria o adjetivo correto. Minha vontade era levantá-la dali e colocá-la em uma cama decente, com cobertas e um chá. Mas isso seria loucura, além de ser inútil. Nada mais poderia ser feito.
O corpo mirrado não foi difícil de carregar. Depositado no fundo daquela cova, foi a última vez que alguém o viu.