sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A morte da bezerra

Caminha quase que se arrastando no chão. Em algum momento do percurso de sua casa até o bar a sua dignidade caíra no chão e ele sequer deu-se ao trabalho de buscá-la. Quase sem dinheiro, sem postura, com a barba por fazer e as roupas puídas, assemelhava-se a um mendigo. E será que eu não o sou? Era o que mais se perguntava. Os dias incontáveis mendigando amor daquela que o deixara sem um tostão sequer o programaram para viver assim: apenas pele, ossos e ócio.

Chega no bar, entrega as suas últimas moedas ao dono e pede tudo em cachaça. "Tudo" era menos de dez reais. Para quê comprar pão? Não sentia mais fome, nem frio, nem a sujeira entranhada na sua pele e em seus cabelos.  Do último banho não tinha lembrança alguma. Os pés encardidos no chinelo remendado com um prego denunciavam a falta de higiene.

Bebe uma dose atrás da outra, sem pensar  em quando a bebida faria seu efeito. Menos de dez minutos  e mais de um litro de aguardente depois, levanta-se completamente tonto. Sai fazendo uma dança estranha: a dança dos bêbados assemelha-se a dos equilibristas. E o que mais seriam eles se não uma espécie de equilibrista? Tentavam ficar em pé na realidade que não parava de rodopiar, em um mundo que gira,gira, gira....

Seus passos trôpegos o levam em direção à rodovia. Visão e audição completamente afetadas, não vê o carro que aproxima-se em alta velocidade pela faixa da esquerda. Não escuta as buzinas de alerta. O menino do carro, concentrado em mandar seu sms  para a namorada, também não percebe aquela figura no meio da estrada.

Caminha de um lado para o outro, dançando sua última valsa com a morte. Em uma fração de minuto a valsa se encerra: o equilibrista finalmente caíra de sua corda-bamba (mais conhecida como vida) e foi parar diretamente no fundo de uma cova no cemitério municipal. Sem nome, sem sobrenome.Apenas mais um indigente que não fará muita falta para a sociedade.


Um bom dia, meus negros lindos.
xoxo