Pílulas desnecessárias de críticas bem-humoradas, histórias verdadeiras (ou não) e constatações sobre a vida de uma acadêmica da FURG.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Pitangueiras
Inacreditável é como as monções do tempo são aleatórias. Há quase um ano atrás essa mesma pitangueira no jardim estava coberta de frutos, como agora. E há quase um ano atrás tinhamos nosso primeiro contato.
Muita coisa aconteceu nesse quase-ano que passou: amores perdidos, desafetos criados, brigas das mais diversas entre nós... e apenas uma certeza. A certeza de que, não importa o quanto eu xingasse e brigasse e olhasse no fundo dos teus olhos e te dissesse que eu nunca mais olharia na tua cara, eu voltaria. Eu sempre volto, tu sabe.
-Tu já vai dormir?
-Sim negrinha, tô cansado, acabei de chegar em casa.
-Hum.
-Não faz beiço.
(estava tudo escuro e ele virado para o outro lado)
-Eu não tô fazendo beiço.
-Tá sim. Eu te conheço.
Sim, tu me conhece. Tu sabe como eu gosto de ser abraçada. Tu sabe como eu viro durante a noite e me destapo, jogo as cobertas no chão, e por esse motivo tu te acorda durante a noite e me cobre com os edredons.
Tu sabe que eu durmo do lado do ventilador. Tu sabe quando eu tenho pesadelos, e sempre que os tenho acordo contigo me abraçando e sussurando coisas ao meu ouvido
Tu sabe que eu faço um doce e digo que vou embora, e tu fala "fica" e eu falo "pra quê? tenho que ir pra casa" e tu fala "a mesma coisa que tu vai fazer em casa tu pode fazer aqui em casa" e eu penso "é verdade" e eu fico e tu sorri para mim com aquela cara de guri safado e volta a dormir porque, como sempre, tu trabalha demais.
Tu sabe como eu gosto de controlar teus gastos, olhar desenho animado, tomar coca-cola de manhã cedo e dormir tapada de edredom com o ventilador ligado na minha cara.
Tu sabe como eu resmungo quando fico brava, como eu morro de ciúmes de ti com as tuas amigas, e sempre faz algum comentário sobre elas mostrando que elas são apenas isso: amigas.
Tu sabe o quanto aquela pitangueira do jardim quer dizer inúmeras coisas a nós dois, e ela o faz apenas existindo. Enquanto a pitangueira do jardim der frutos, eu terei meu gato preto e tu terás a tua negrinha.
Mesmo que por vezes nosso relacionamento se desgaste nos invernos da vida, mesmo que os ventos do outono levem as nossas folhas para longe, a primavera sempre vem, e o verão também, e a gente se renova e cresce e amadurece e vê que, a cada dia que passa, precisamos de menos artificios e joguinhos e ciúmes e artimanhas com o outro e do outro, porque somos assim e ponto final.
