Corpo seco, espalha o hidratante lentamente, como se o creme pudesse encobrir aquelas marcas. Coloca a roupa íntima, olha-se no espelho e observa as cicatrizes recentes, os machucados, as marcas.... as malditas marcas que a acompanhavam por todo lado.
Apesar do clima ameno,veste calças compridas e um casaco. Coloca um tênis. Os pés, cansados do sapato altíssimo, agradecem pelo tempo de descanso. Escova os cabelos recém limpos.Em Brasília, sete horas e trinta minutos.
Sem maquiagem, sem cílios postiços, sem nada no rosto, parecia outra pessoa. Quase irreconhecível. Pega a bolsa e os cadernos, o celular,tranca a porta e sai para a rua.
Ao chegar, compra um café bem forte e adoça com sucralose. Adoçante é uma mentira: lhe faz pensar ser açúcar, mas o gosto pseudo-doce deixa um rastro amargo no fundo da boca.
Caminha lentamente em direção à sala de aula, cumprimentando algumas poucas pessoas e ignorando a maioria. Quanto menos gente a conhecesse, melhor. Sala fechada, desce e fuma um cigarro. O primeiro do dia, muitos ainda estão por vir.
Vai ao banheiro, olha-se no espelho e simplesmente não reconhece aquele rosto. O que antes era familiar,agora não passa de uma máscara do cotidiano. Mas vivia em um baile, em que as máscaras eram cada vez mais elaboradas, de forma a jamais deixar transparecer as pessoas que as usavam. Em Brasília, oito horas em ponto.