Mais uma noite encerrou-se. Cansada, ela espera um táxi sob a marquise da loja. Encoberta por seu casaco, ela se encolhe por causa do vento frio. As pernas desnudas arrepiam-se em contato com o vento gelado.
Pega o táxi, senta-se em silêncio e vai para casa. Os olhares do taxista pelo retrovisor faziam com que ela ficasse com mais vergonha do que já tinha. Preço total: R$35,00. Ela paga com uma nota de R$50 e não pede troco. O motorista olha para a nota amassada, imaginando sua origem e reprimindo um comentário maldoso sobre a procedência, mas resolveu ficar quieto, já que dinheiro é dinheiro e isso nunca se nega.
Desce do carro, abre a porta de casa e vai despindo-se em direção ao banheiro. Ajusta o chuveiro para a temperatura máxima. Liga o rádio bem alto: em Brasília, são cinco horas e quarenta e cinco minutos. Um blues tocando, e o vapor espalha-se pelo banheiro. Completamente nua, ela enfia-se sob a água escaldante. Começa então a esfregar-se suavemente. Aos poucos, vai aumentando a fricção da esponja contra a pele, até perceber que estava quase esfolando-se viva. Olha para os braços: vermelhos, doloridos. Em Brasília, seis horas e vinte minutos.
Esfrega ainda mais forte, querendo com isso limpar a sua consciência, as imagens, os pensamentos, as lembranças, o cheiro. O que mais a agoniava era aquele cheiro de pecado que se entranhava em suas narinas e custava a sair. Como em um passe de mágica, em Brasília, sete horas.
Sai com a pele vermelha, quase em carne-viva. Espalha uma grande quantidade de perfume, em uma vã tentativa de encobrir aquele cheiro. Seca-se, senta-se na beira da sua cama e chora, tentando descobrir por quantos dias mais aguentaria aquela rotina infernal.