quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Era uma vez em janeiro...

Entre um cigarro e outro, ela contemplava a tela do computador. Perdida entre divagações, pensava sobre tudo aquilo que até então havia feito. Que ela havia errado, isso já era fato consumado. Mas como mudar? E será que realmente era preciso mudar?
O ano que passou rapidamente a alertou sobre algo importante: naquele lugar,os relacionamentos são descartáveis. Mesmo tentando fazer algo certo, havia algo de insano impregnado no ambiente. Algo que deixava as pessoas supérfluas, rancorosas, acostumadas a perder e a deixar as coisas importantes de lado.
A diversão sem regras e sem limites era o mantra da maioria daqueles garotos. Pobres garotos. Quando pensavam que finalmente haviam encontrado aquilo que tanto buscavam, logo o trocavam por uma noite de bebedeira e chapação. Talvez não fosse algo premeditado.  Talvez o ambiente os influenciasse. Ou os amigos. Ou não.
Mais um  cigarro, mais um perfil aberto no facebook, mais uma  surpresa: outro relacionamento terminado. Um brilho maroto em seus olhos: esse eu já sabia que não iria durar nada. Eles são diferentes demais. Certamente eu daria certo com esse menino. Gostamos de coisas parecidas. Nos damos relativamente bem, apesar de pouco conversarmos. O frenesi da universidade faz com que os contatos do intervalo sejam rasos e frívolos. Mas é lógico que o menino jamais ficaria com ela: menino bonito, educado, descolado, futuro engenheiro. Só "pega" as outras meninas do mesmo "nível" que ele, enquanto ela se escondia no submundo das ciências humanas. Não era bonita, não era estilosa.  Sua popularidade era basicamente pelo fato de ser metida e simpática: sempre chegando nos pequenos grupos sem ser convidada. Se bem que a opinião dos outros pouco importava para ela. "Droga, esse cigarro já acabou?!". Acende mais um, abre mais um perfil. Esse é futuro advogado.Bonito também. Mais inteligente que o primeiro. Gosta de rock. Popular. Sequer sabe de sua existência.
Cansou de cuidar da vida alheia, levantou, olhou-se no espelho. Arrumou o cabelo, encolheu a barriga. Olhou seus olhos bem no fundo, tentando imaginar até onde chegaria. Chorou. Chorou um choro triste, compassado, com direito a soluços. Limpou as lágrimas, trocou de roupa e voltou à tela do computador. Por detrás das palavras digitadas,sentia-se mais forte. Mas sabia que todas aquelas pessoas jamais a olhariam com os olhos de desejo. Parecia que não pertencia àquele mundo. Ela era apenas a menina do prédio das humanas. Simples demais, gordinha demais, sem-graça demais.